Peter Cohen, cineasta sueco, retrata em seu documentário intitulado “arquitetura da destruição” os mecanismos utilizados por Hitler e o Partido Nazista para difundir e viabilizar as idéias nazistas, utilizando para tanto, como pano de fundo, a valorização da arte e da cultura.Em 1933, Hitler chegou ao poder. Líder do Partido Nazista, arquitetou uma verdadeira transformação da Alemanha e de seu povo. Seu objetivo principal era tornar o império Alemão em uma potência mundial e seu povo em símbolo de perfeição e beleza.Resgatou os referenciais de beleza e cultura da arte Clássica (greco-romana) e da Renascença (Itália). Tudo o que fosse produzido deveria levar em consideração os preceitos clássicos. Por embasar suas atitudes nos princípios artísticos e culturais, podemos pensar em conceitos como “ação cultural” e “fabricação cultural”.A ação cultural é um processo com início claro, mas sem fim específico. Por ser “um instrumento deliberado de mudança do homem e do mundo” (COELHO, 1989), não possui “etapas” a serem seguidas, nem objetivo específico a que se deva chegar. A ação cultural deve proporcionar ao indivíduo o poder de “diferenciação” das coisas, ou seja, de questionamento, criando, assim, um senso crítico que deve ser utilizado pelo indivíduo para perceber o mundo a sua volta em todos os seus aspectos, sejam eles, políticos, econômicos, sociais ou culturais.Já a fabricação cultural, “é um processo com um início determinado, um fim previsto e etapas estipuladas que devem levar ao fim preestabelecido” (COELHO, 1989). A ação de Hitler apresenta características pertencentes à fabricação cultural. Podemos pensar que seu projeto, ao utilizar a arte e a cultura como “motivos” de justificação de seus atos, criou um processo de fabricação cultural que possuía muito bem arquitetado suas etapas e um objetivo preestabelecido: a purificação da raça ariana (e aqui está embutido o extermínio do povo judeu como parte fundamental do processo) e a transformação do império alemão em potência mundial, mostrando a superioridade da raça ariana representada pelo povo alemão.Para disseminar as idéias do Partido Nazista e colocar em prática seus planos, usou a publicidade como ferramenta de divulgação de sua filosofia. A utilização da linguagem publicitária foi de fundamental auxílio para a execução de seus projetos. Por meio dela, através de campanhas divulgadas em rádio, jornais, revistas, cartazes e televisão, induziu a população a aceitar e concordar com o que era proposto através dessas campanhas, conseguindo, assim, o consentimento da povo para suas práticas. As informações eram recebidas de forma diluída e imposta, característica da propaganda, considerada o mecanismo ideal para propagação de idéias dessa maneira, que constrói seu argumento de modo a não permitir à maioria dos ouvintes e/ou leitores o questionamento sobre a mensagem que está sendo imposta.Na área da saúde e da beleza humana também deveriam ser seguidos os exemplos clássicos. Pessoas com deficiências mental e física eram rejeitadas e confinadas a lugares separados do restante da sociedade considerada saudável. Campanhas publicitárias endossavam a idéia de que a separação dessas pessoas era a melhor atitude a ser tomada. Em certo ponto do seu governo, Hitler autorizou o assassinato de bebês deficientes, fato esse retratado no documentário de Peter Cohen. No campo das artes, foram organizadas exposições que comparavam fotografias de pessoas deficientes a pinturas expressionistas para mostrar à sociedade a degeneração das artes que estavam sendo produzidas. Essas exposições tinham o objetivo de impor à sociedade a não-aceitação desse tipo de arte. Em contra-partida, organizavam-se, anualmente, grandes exposições artísticas com quadros e esculturas que reverenciam os grandes pintores clássicos e, também, os artistas alemães que seguiam os modelos aceitos e admirados por Hitler.O ditador também incentivou a produção artística que retratava o “trabalho” do exército alemão. Patrocinou a produção artística de alguns pintores, enviados aos campos de batalha, para retratarem o cenário de guerra, de modo a ressaltar de maneira positiva o trabalho dos soldados. Na arquitetura, projetou e executou construções, sempre de grandiosas proporções, para mostrar o poder de seu império.A interferência de Hitler se deu em todas as áreas: política, educacional, econômica, social e cultural, que passaram a ser ditadas em conformidade com as regras impostas pelo Partido Nazista. Limitou o poder de criação e não ofereceu condições para a espontaneidade artística. Direcionou todos os meios para que os resultados saíssem de acordo com seus preceitos. Portanto, podemos afirmar que a Alemanha sofreu um processo de fabricação cultural, dirigido por Hitler e o Partido Nazista.Todas essas atitudes demonstraram a intolerância frente ao “diferente” e ao que não se enquadrasse aos padrões dos modelos impostos. Essa “não-aceitação” impulsionou a execução de verdadeiras atrocidades contra a humanidade, cometidas com a finalidade de “eliminar” tudo o que não estivesse dentro dos padrões culturais estabelecidos. Os resultados desse processo nos mostram o quão perigoso é abrir mão do discernimento, do senso crítico e da lucidez, fatores fundamentais para evitar que nos tornemos “massa de manipulação” de processos como o retratado no documentário. A grande contradição dessa “fabricação cultural” foi utilizar-se da arte e da cultura, que possuem como preceito fundamental a capacidade de diferenciação, “que move o indivíduo para longe da indiferença” (COELHO, 1989) e são instrumentos de conscientização, para um projeto que não tolerava o diferente e diluía as informações de maneira a manipulá-las para benefício dos projetos de Hitler e do Partido Nazista.