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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Arquitetura da destruição: a fabricação cultural de Hitler

Escrevi o texto abaixo há 4 anos. É um brevíssimo comentário sobre o documentário "Arquitetura da Destruição", de Peter Cohen, realizado em 1992.
Peter Cohen é um cineasta sueco cujo pai, judeu alemão, foi perseguido pelo regime nazista.
"Arquitetura da Destruição" é sua obra mais famosa. Por ser um documentário de longa duração, foi separado em 12 partes no YouTube. Posto aqui a primeira parte para deixá-los com gostinho de "quero mais". Assim, quem gostar poderá assistir as demais partes diretamente pelo YouTube.



Peter Cohen, cineasta sueco, retrata em seu documentário intitulado “arquitetura da destruição” os mecanismos utilizados por Hitler e o Partido Nazista para difundir e viabilizar as idéias nazistas, utilizando para tanto, como pano de fundo, a valorização da arte e da cultura.Em 1933, Hitler chegou ao poder. Líder do Partido Nazista, arquitetou uma verdadeira transformação da Alemanha e de seu povo. Seu objetivo principal era tornar o império Alemão em uma potência mundial e seu povo em símbolo de perfeição e beleza.Resgatou os referenciais de beleza e cultura da arte Clássica (greco-romana) e da Renascença (Itália). Tudo o que fosse produzido deveria levar em consideração os preceitos clássicos. Por embasar suas atitudes nos princípios artísticos e culturais, podemos pensar em conceitos como “ação cultural” e “fabricação cultural”.A ação cultural é um processo com início claro, mas sem fim específico. Por ser “um instrumento deliberado de mudança do homem e do mundo” (COELHO, 1989), não possui “etapas” a serem seguidas, nem objetivo específico a que se deva chegar. A ação cultural deve proporcionar ao indivíduo o poder de “diferenciação” das coisas, ou seja, de questionamento, criando, assim, um senso crítico que deve ser utilizado pelo indivíduo para perceber o mundo a sua volta em todos os seus aspectos, sejam eles, políticos, econômicos, sociais ou culturais.Já a fabricação cultural, “é um processo com um início determinado, um fim previsto e etapas estipuladas que devem levar ao fim preestabelecido” (COELHO, 1989). A ação de Hitler apresenta características pertencentes à fabricação cultural. Podemos pensar que seu projeto, ao utilizar a arte e a cultura como “motivos” de justificação de seus atos, criou um processo de fabricação cultural que possuía muito bem arquitetado suas etapas e um objetivo preestabelecido: a purificação da raça ariana (e aqui está embutido o extermínio do povo judeu como parte fundamental do processo) e a transformação do império alemão em potência mundial, mostrando a superioridade da raça ariana representada pelo povo alemão.Para disseminar as idéias do Partido Nazista e colocar em prática seus planos, usou a publicidade como ferramenta de divulgação de sua filosofia. A utilização da linguagem publicitária foi de fundamental auxílio para a execução de seus projetos. Por meio dela, através de campanhas divulgadas em rádio, jornais, revistas, cartazes e televisão, induziu a população a aceitar e concordar com o que era proposto através dessas campanhas, conseguindo, assim, o consentimento da povo para suas práticas. As informações eram recebidas de forma diluída e imposta, característica da propaganda, considerada o mecanismo ideal para propagação de idéias dessa maneira, que constrói seu argumento de modo a não permitir à maioria dos ouvintes e/ou leitores o questionamento sobre a mensagem que está sendo imposta.Na área da saúde e da beleza humana também deveriam ser seguidos os exemplos clássicos. Pessoas com deficiências mental e física eram rejeitadas e confinadas a lugares separados do restante da sociedade considerada saudável. Campanhas publicitárias endossavam a idéia de que a separação dessas pessoas era a melhor atitude a ser tomada. Em certo ponto do seu governo, Hitler autorizou o assassinato de bebês deficientes, fato esse retratado no documentário de Peter Cohen. No campo das artes, foram organizadas exposições que comparavam fotografias de pessoas deficientes a pinturas expressionistas para mostrar à sociedade a degeneração das artes que estavam sendo produzidas. Essas exposições tinham o objetivo de impor à sociedade a não-aceitação desse tipo de arte. Em contra-partida, organizavam-se, anualmente, grandes exposições artísticas com quadros e esculturas que reverenciam os grandes pintores clássicos e, também, os artistas alemães que seguiam os modelos aceitos e admirados por Hitler.O ditador também incentivou a produção artística que retratava o “trabalho” do exército alemão. Patrocinou a produção artística de alguns pintores, enviados aos campos de batalha, para retratarem o cenário de guerra, de modo a ressaltar de maneira positiva o trabalho dos soldados. Na arquitetura, projetou e executou construções, sempre de grandiosas proporções, para mostrar o poder de seu império.A interferência de Hitler se deu em todas as áreas: política, educacional, econômica, social e cultural, que passaram a ser ditadas em conformidade com as regras impostas pelo Partido Nazista. Limitou o poder de criação e não ofereceu condições para a espontaneidade artística. Direcionou todos os meios para que os resultados saíssem de acordo com seus preceitos. Portanto, podemos afirmar que a Alemanha sofreu um processo de fabricação cultural, dirigido por Hitler e o Partido Nazista.Todas essas atitudes demonstraram a intolerância frente ao “diferente” e ao que não se enquadrasse aos padrões dos modelos impostos. Essa “não-aceitação” impulsionou a execução de verdadeiras atrocidades contra a humanidade, cometidas com a finalidade de “eliminar” tudo o que não estivesse dentro dos padrões culturais estabelecidos. Os resultados desse processo nos mostram o quão perigoso é abrir mão do discernimento, do senso crítico e da lucidez, fatores fundamentais para evitar que nos tornemos “massa de manipulação” de processos como o retratado no documentário. A grande contradição dessa “fabricação cultural” foi utilizar-se da arte e da cultura, que possuem como preceito fundamental a capacidade de diferenciação, “que move o indivíduo para longe da indiferença” (COELHO, 1989) e são instrumentos de conscientização, para um projeto que não tolerava o diferente e diluía as informações de maneira a manipulá-las para benefício dos projetos de Hitler e do Partido Nazista.

Referências
COELHO, Teixeira. O que é ação cultural. São Paulo: Brasiliense, 1989. Coleção primeiros passos, 216.
COHEN, Peter. Arquitetura da destruição. Suécia, 1992. 121 min.

domingo, 9 de maio de 2010

Meu projeto de TCC

Escrevi dois projetos, de áreas diferentes: um em ação cultural e um em arquivo.
O escolhido foi o de ação cultural.
O tema é: "A biblioteca da Casa das Rosas: uma análise sobre seu acervo, serviços, usuários e sua interação com o Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura."
Minha orientadora: Prof.ª
Tânia Callegaro.
Milanesi (1998) diz que uma boa biblioteca pode tornar-se um verdadeiro centro cultural.
Fico pensando como é o trabalho da biblioteca inserida em uma instituição cultural. Qual o papel que exerce efetivamente e qual o nível de interação entre ela e a instituição à qual pertence com relação ao trabalho de ação cultural. Existe? Sim? Não? Por que?
Esses são meus questionamentos iniciais... vamos ver como ficam com o desenrolar do projeto.
A Casa das Rosas é um lugar especial para mim. Um local onde posso ficar por horas sem sentir o tempo passar. Minha mente viaja toda vez que estou nela. O prédio é lindo. Fico imaginando as coisas que devem ter acontecido ali... como deviam ser as vidas das pessoas que passaram por aquela casa, a transformação da Paulista... Gosto de sentir a atmosfera que a casa possui... fico muito à vontade nela. Observo seus frequentadores, funcionários... enfim, é um lugar que me agrada muito.



Para quem não conhece a Casa das Rosas, acesse o site oficial: http://www.poiesis.org.br/casadasrosas/

Conheça a programação para o mês de maio, clique aqui.


Vinheta oficial:



Conheça a Casa das Rosas, ela fica na Av. Paulista, nº 37, perto da estação de metrô Brigadeiro.

sábado, 27 de março de 2010

Boa noite, Caio.

Pronta para dormir. Uma dorzinha de cabeça chata me incomoda, mesmo já tendo jantado.
Porta do quarto fechada. Duas voltas e a chave retinha, como sempre. Um cansaço. Luz apagada.A TV ligada. Som baixinho. Sleep pronto para os 60 minutos de todo dia.


Olho para a escrivaninha. Lá está o livro do Caio. De repente, num movimento nada premeditado, como se meu corpo agisse mais rápido que meu cérebro, lá estava eu deitada, com o livro ao meu lado.
Veio o impulso de ler. Há muito não lia antes de dormir. Na verdade, há muito deixei de ler. No máximo um texto ou outro ou, ainda, apenas as primeiras páginas de algum dos muitos livros comprados e não lidos, que me aguardam na estante ou na bolsa, durante a viagem de metrô, nos raros momentos em que consigo me sentar ou, então, em que não estou com dor de cabeça.


Sim, impulso. Não era vontade, pois o cansaço não dava brecha a este sentimento. Também não era falta de sono. Foi mais uma necessidade. E a luz continuava apagada, a cabeça pesando mais (cansada de tantos medicamentos, resolvi não tomar mais um ). Folheei o livro. Decidi ler a seleção de cartas. As que tinha escrito à mãe.
Deitada, apenas com a parca luminosidade da TV que exibia o início do ZOOM, comecei a leitura...

Sampa 7.2.79

Querida mãe,
estou aproveitando a ida do Augusto para mandar esta carta, escrita na redação mesmo, a senhora sabe, aquelas corridas de sempre. Ando sentindo falta de notícias daí...
(...)
Aqui tá tudo bem – hoje tá um dia de sol lindo, nem parece São Paulo. Acordei às 7 e meia da manhã com a dona Francisca chegando...
(...)
Estou sozinho em casa (hoje chega o Luiz Arthur, que vai ficar uns dias aqui) – Rofran foi fazer um filme em Pirapora, no interior de Minas Gerais, e eu estou até um pouco preocupado, porque Minas inteira está debaixo d’água, e Pirapora é uma das cidades mais atingidas. Ele ficou de telefonar e não telefonou, acho que a equipe de filmagem deve estar ilhada lá.


Fiquei muito contente com a aprovação das gurias no vestibular. Vai ser ótimo para elas, só espero que a Cláudia aguente aqueles demônios do curso de Letras, como a Rebeca ou o Bunse, professor de Linguística.
Interrompi, tivemos uma reunião, agora já é de tarde. Tá uma bagunça isso aqui. Saíram algumas pessoas da revista, acumulou trabalho, ficou meio baixo-astral. Durante a reunião tive uma discussão meio forte com a patroa. Ando meio ofendido com certas coisas – como o diretor marcar uma reunião às 9 da manhã, eu e outros chegamos antes das 9, e ele só pinta às 10 e meia, muito apressado, falando que a revista tá péssima, coisas assim. Falou que tínhamos que reduzir os textos, aumentar as fotos e o visual, que o “leitor não gosta de ler”. Eu disse que tinha irmãs adolescentes que adoravam ler, e que achava que a gente não devia colaborar com a alienação. Ele me chamou de obsoleto, eu fiquei puto e repliquei que minha formação foi feita antes de 64, e que se ele achava que cultura e leitura eram coisas obsoletas então íamos muito mal – e que se ele tava a fim de colaborar com o processo de castração mental da juventude brasileira pós-64, eu não estava. Por aí foi. Numa certa altura, até a senhora acabou entrando na briga. Ele disse que meus títulos pareciam livro antigo de História. Eu falei “minha mãe é professora de História, eu estudei muita História e se a juventude de hoje não sabe nem quem foi Getúlio Vargas é porque não se estuda mais História”. Voou pena. Suei, gritei. Todo mundo quieto em volta. Aí resolvi calar a boca. Afinal, como na fábula do lobo e do cordeiro: contra a força não há argumentos.



Mas ando de saco muito cheio com essas coisas. De repente tô trabalhando num lugar que me obriga a ir contra tudo o que penso e sinto. Não sei como resolver tudo isso. Mas tudo bem, to calmo e ponderado, embora a vontade seja de agredir todo mundo, dizer meia dúzia de verdades e sair pisando duro. Não vou fazer nenhuma loucura.
(...)
Caio
(ABREU, Caio Fernando. Caio 3D: o essencial da década de 1970. Rio de Janeiro: Agir, 2005. p. 331, 332)

Engraçado como sempre sou surpreendida pelo Caio.
Meu primeiro encontro foi no 3º ano da faculdade de Letras (ano 2000), durante uma aula de Literatura Brasileira com o professor João Luís Ceccantini. Ele nos deu o conto “Além do ponto”, para que o lêssemos e escrevêssemos nossas impressões. Tinha que ser entregue no final da aula. Não era uma análise. Era algo simples, explicou.
Impossível. Aquele conto não tinha nada de simples. E fiquei paralisada.
Não entreguei a tarefa ao final da aula. Não entreguei a tarefa no período da tarde. Não entreguei a tarefa no dia seguinte.
Cheguei ao ponto em que não conseguia passar daquele ponto, por mais que tentasse.
Ainda hoje, não tenho como explicar o que aconteceu. Foram duas semanas pensando, chorando, com um nó na garganta. Nada passava. A única coisa em que pensava era no conto. E quanto mais pensava, menos conseguia fazer.
Aquela chuva, aquela desolação, aquele querer acreditar...
Cheguei ao ponto estático: não podia voltar, não podia seguir adiante.
Apenas semanas depois entreguei meu trabalho.
Esse encontro foi marcante.
Foi o encontro com o Caio, o encontro comigo mesma, o encontro com o verdadeiro contexto em que me encontrava.
Daquele dia em diante, sempre sou surpreendida por Caio. Seja num conto, num texto, numa carta.
E assim foi esta noite.


Um sorriso me escapou, ao ver a coincidência nas mães professoras de História.
Não, não é uma situação incomum. Nada de extraordinário para a maior parte das pessoas. (Bem-vinda ao mundo real, dizem os “experientes”.) O problema é que não é normal para mim. E não quero, jamais, achar que esta situação é trivial e que deva ser ignorada por ser inevitável. Não, não sou ingênua. Não vou mudar as pessoas, muito menos o mundo. Mas não dá para encarar uma situação dessas de forma a tornar-me conivente ou, ainda, de forma a aceitar e até mesmo internalizar esta ideia.
Mais uma vez agradeço ao Caio. Minha cabeça parou de doer. Com relação a este assunto, assim como ele, “Não sei como resolver tudo isso”, mas estou serena agora. E pronta para dormir.


“Não vou fazer nenhuma loucura”.

domingo, 21 de março de 2010

À procura...


Estou à procura de um tema para meu projeto.
Será uma atividade conjunta entre 3 disciplinas da faculdade: Ação Cultural, Editoração Eletrônica e Planejamento de unidades de Informação.
Preciso pensar rápido... e, quanto maior a pressa, menor o raciocínio...