Quando deixamos a rotina e nos lançamos a algo novo nossos sentidos voltam a se aguçar.
É curioso notar como deixamos de prestar atenção nas coisas quando nossos atos se tornam costumes, hábitos mecanizados que seguem apenas a lógica do relógio.
Quando voltei a morar nessa cidade, andar de metrô era sempre uma aventura. Um turbilhão de sensações tomava conta de mim. Deleitava-me sendo apenas uma voyeur. Ficava feliz ao encontrar bebês super fofinhos nos carrinhos ou nos colos de suas mães, risadas espontâneas ao ver crianças divertindo-se de forma tão gostosa com a descoberta do metrô, as muitas informações, as conseqüências que o andar e frear do trem faziam em seus corpos, a tão esperada hora de passar por debaixo do túnel e, em algum casos, o medo ou irritação pelo barulho que levavam suas mãozinhas aos olhos ou ouvidos.
Observava as pessoas, o que liam, o que faziam, o que conversavam... imaginava como seria a vida daqueles que viajavam sozinhos e com um semblante de tristeza ou muito cansaço.
E assim minha viagem caminhava mais rápido e de maneira prazerosa. Muitas vezes escutava músicas que se tornavam a trilha sonora das histórias que ia construindo conforme os personagens que apareciam no vagão.
Depois de anos realizando o mesmo trajeto, nos mesmos horários e com o cansaço aumentando, é lamentável notar como tudo isso perdeu seu encanto...
Os “planos” também nos fazem perder essa sensibilidade. Nossa cabeça é arrebatada por uma avalanche de pensamentos sobre o trabalho, sobre as atividades a fazer, sobre as compras e as contas a pagar... e a única coisa capaz de nos acordar desse transe é o relógio. Pois é ele quem manda em nossas vidas, quem rege nossa rotina para que consigamos realizar tudo o que foi planejado.
Voltei a ter meus sentidos aguçados. Passei a ir trabalhar de carro. O trajeto não é exatamente o mesmo diariamente, pois aprendi a pegar uns “atalhos” na tentativa de escapar do trânsito em dias mais tensos... Mas algumas cenas são as mesmas, faça sol ou chuva, estando um calor escaldante ou um frio de gelar a alma, lá estão eles: os vendedores ambulantes.
Acho que criaram uma cooperativa ou alguma forma parecida de organização. São sempre os mesmos, vestindo coletes refletivos, bonés, para se protegerem do sol, e seus produtos nas mãos. Sinto como se fossem meus colegas de trabalho. Pois, todos os dias, nos vemos e nos cumprimentamos. Fico imaginando como é a vida deles, se possuem família, onde vivem, quanto ganham (se é possível viver dignamente com esse trabalho), se gostam do que fazem, se têm sonhos, se são felizes.
Eles, à mercê do tempo, eu, no conforto do meu carro. Escutando a programação da Rádio Cultura, Debussy, Mozart, Vivaldi, Bach, Villa Lobos e tantos outros, tornam-se a trilha sonora deste capítulo diário que me faz parar de pensar em mim para pensar no outro. Pensando no outro, me pego pensando em como sou responsável pela condição desse outro e o que posso fazer para amenizar as diferenças.
Depois, também penso o quão arrogante sou. Afinal, somos iguais, o ambulante e eu.
Um amigo, da época de faculdade, hoje psicólogo, uma vez questionou sobre o processo de caridade. Disse ele, se a memória não me trair, que nossa visão era errada, pois sempre partimos do princípio de que o outro só estará bem e feliz se tiver o mesmo estilo de vida que o nosso, algo muito próximo disso ou, ainda, se dermos as condições (de maneira dada, não ensinada) para que possam alcançar o que temos. Ou seja, geralmente, para a maioria das pessoas que realizam “caridade” o outro é infeliz porque não possui uma casa, um quarto bem decorado, conforto e bens materiais que o caracterizem como um consumidor pertencente à certa classe social.
Fiquei chocada ao ouví-lo. Quis argumentar (e argumentei), ficamos cada um com o seu ponto de vista. Anos depois, entendi o que ele quis dizer e passei a concordar com sua visão.
A “caridade” que fazemos é sempre material. Não é preciso ser hipócrita, dinheiro é vital para a compra de mantimentos e bens de consumo necessários à vida em sociedade (roupas, calçados, etc.), todos precisam comer e ter direito a viver com o mínimo de dignidade. No entanto, o que fazemos, na verdade, é olhar essas pessoas como “coitadas” por não terem aquilo que “nós” temos. Mas, será mesmo que o outro precisa ter uma roupa de marca? Um tênis Nike? Ou precisa saber sobre a sua história, origem e os rumos que pode tomar para se tornar um verdadeiro cidadão? Capaz de ter seus próprios desejos e discernimento para escolher aquilo que melhor lhe convier? Capaz de saber que uma calça da Diesel não traz felicidade, que “andar na moda” não lhe garante amigos verdadeiros, diálogos que te façam refletir e ações que te façam ver e sentir o que o dinheiro não compra, mas cujos benefícios para a sua formação “humana” são incalculáveis?
Assim, criamos uma legião que acredita ser obrigação daqueles que possuem um melhor “status social” ajudar, de mão beijada, os “menos favorecidos” a conquistar, também, os bens de consumo por eles desejados, mesmo que esse desejo não seja fiel à sua própria vontade e, sim, resultado das artimanhas publicitárias que fazem com que o consumidor tenha a ilusão de consciência de seus desejos de compra, quando, na realidade, não passa de um joguete nas mãos do mercado.
Os que ajudam sentem “um vazio” ou um sentimento de culpa que, a fim de ser amenizado, os levam a doar os bens que lhes sobram. Entretanto, o “condicionamento em adquirir em detrimento do pensar” é tão poderoso em nossa sociedade, que poucos se dão conta que o vazio continuará lá, pois não é essa a maneira correta de preenchê-lo.
Penso em tudo isso enquanto estou no carro e considero que o melhor a fazer é sempre agir para que a educação e o acesso à informação sejam realidade a todos. Penso na função social de minha profissão e nas ações que posso desenvolver para ajudar a tornar esse ideal em realidade.
Alguém aparece ao lado de minha janela...
É incrível encontrar um sorriso espontâneo no rosto de um trabalhador desses. Ele passa, sorri, oferece seu produto e lhe agradece de maneira alegre, desejando um “bom dia” (independente se a venda foi realizada ou não). Espanto-me. Em meu mundinho pequeno, fico admirada em ver que as dificuldades da vida não são capazes de elidir o sorriso e a esperança do rosto dessas pessoas. Em meu mundinho, descobri que tudo está errado. Nesta semana, o abrigo que construí durante 31 anos de existência simplesmente desabou. De material frágil e lacerante desfez-se sobre mim. Feridas abertas e a certeza de que não existem certezas. A certeza de saber que tudo o que fiz, pensando ser o melhor, não passou de erros, enganos e distorções que me fizeram criar uma linha de raciocínio, um comportamento, um mundo e a ilusão de que tudo nele funcionava. Agora, que a verdade bateu em minha face, enxergo que era uma vida de faz de conta na qual interpretava uma personagem. Uma enferma personagem que não vislumbrava sua própria condição.
O dia que começa é sempre uma incerteza: Fará sol? Tempo nublado? Chuva? Forte ou fraca? Passarei frio? Calor? Conseguirei vender? Conseguirei pagar meu aluguel? Comprar comida?
Assim como é incerto o trabalho e a vida desses ambulantes que, mesmo quando tudo parece atuar de forma contrária, não economizam no otimismo, na boa educação, na esperança e na gentileza, é incerto meu caminho, agora. Aprender que não existem certezas, verdades absolutas. Aprender a sempre questionar, a sempre pensar em todos os lados existentes e saber que o que se é hoje, pode-se não ser amanhã e que isso não é errado. Aprender a não ser fixa, a não ser rígida.
Aprender que a incerteza não é negativa. Aprender a caminhar nessa nova escola para poder costurar as feridas que os cacos de vidro me causaram. Aprender que é preciso tempo para que elas cicatrizem. Aprender que as marcas nos servem de lição. Aprender que sempre é possível aprender. Aprender que também é possível sorrir em dias de chuva.
quarta-feira, 20 de abril de 2011
terça-feira, 22 de março de 2011
O problema da falta de educação

Está cada dia mais difícil ser uma pessoa tolerante. Tive uma educação muito boa. E engana-se quem pensa que estou falando em acesso a colégios caros, cursos no exterior... Falo de educação mesmo, aquela que se aprende em casa e se aprimora na escola, aquela que, infelizmente, parece não mais existir.
Tentei, por 5 aos seguidos, ser uma pessoa socialmente correta. Mas é impossível aceitar a situação que só piora a cada dia. Ao analisar o todo, não há como não ser tomada por um ceticismo profundo.
Um governo que dá acesso ao consumo desenfreado e não educa sua população. A família, cada vez mais desestruturada (ou essa palavra sofrerá uma mudança em seu conceito, ou deixará de existir no ritmo em que a população anda): crianças nascendo aos montes, sem planejamento algum, filhos e filhas de mães sem pais, ou pais se mães, ou abandonados por ambos e criadas pelos avós... filhos e filhas de traficantes, de pais dependentes químicos... ou, ainda, filhos da classe média e alta que não conseguem ver os pais, que trabalham para dar aos filhos uma boa ($) educação ou manter o padrão de vida, pessoas de uma mesma família que não convivem entre si... onde todas as ações são realizadas em torno do dinheiro, e que acaba sendo passado aos filhos como o único bem, que rege todos os relacionamentos.
E a situação só tende a piorar.As pessoas acham um absurdo quando digo que não terei filhos. Absurdo é colocar filhos num mundo, mais espeficicamente ainda, num país, onde a população acha mais importante ter um celular de última geração à água encanada e esgoto tratado.
Serei mais específica ainda. A educação em São Paulo é um engodo.Muitos são os fatores que contribuem para isso e se formos analisar, por trás de cada um deles existe mais uma série de outros fatores que atuam negativamente para o cenário atual.
Pensando em tudo isso, aquela famosa frase de que "a ignorância é o caminho da felicidade" passa a fazer todo o sentido.
Mas... concentrarei minha indignação e revolta para escrever aqui o que mais me incomoda ultimamente (não que os outros problemas não me afetem) e que me fez voltar a postar (nessa válvula de escape virtual que se iniciou como uma obrigação de disciplina de faculdade e agora faz papel de terapeuta - estes que me perdoem).
Por 5 anos enfrentei ônibus e metrôs lotados, muitas vezes pegando 8 conduções por dia - entre trabalho e faculdade. Dependendo da classe social das moscas que vierem a ler este post, serei crucificada, taxada de "fraca", de uma pessoa que não sabe o que é realmente ter problemas, afinal, milhares de pessoas enfrentam essa realidade todo dia e eu, felizmente, não utilizo as linhas mais "barras pesadas" que existem.
É verdade. No entanto, caras mosquinhas, felizmente tive educação. Uma avó que morava no sítio, que mal tinha o que dar de comer aos seus filhos quando as plantações eram perdidas por geadas ou por secas, não tinha "posses", tinha algo muito mais valioso, e que depois que se conquista, nunca se perde, ela tinha educação. Mesmo analfabeta, foi a pessoa mais educada que conheci. Sabia se portar nos mais diferentes locais, sabia o quanto é importante ser uma pessoa honesta, ter caráter, respeito e moral.
Esses valores, que tive a felicidade de aprender em família, são imprescindíveis para se viver em sociedade.
A maior dificuldade está em ter que conviver, diariamente, com pessoas que não receberam essa mesma educação.
No início, e muitas vezes até hoje, tento olhar os outros indivíduos como pessoas que não tiveram a mesma oportunidade que eu e, assim, minimizar minha raiva com relação aos comportamentos insuportáveis que muitas vezes quase me tiram do sério.
Afinal, a culpa é (em sua maior parte) do governo que não deu e não dá condições para que as pessoas se eduquem, se tornem cidadãs.
O que vejo no caminho diário ao trabalho é um bando de pessoas agindo como animais... acordam, vão para seus empregos, trabalham e voltam para suas casas. Uma rotina exaustiva que faz com que o indivíduo (que nunca teve uma educação que prezasse o pensamento, a reflexão) não tenha a mínima paciência e vontade em questionar sua própria situação, o mundo que o cerca.
Para "descansar" desse ritmo mais que acelerado de vida, a pobre programação da TV, o culto evangélico ou o "mé" no bar do Zé são as opções utilizadas.
E assim os dias vão passando... e eu tendo que aguentar celulares tocando funks com letras grosseiríssimas (eufemismo) no último volume, pessoas se esgoelando em conversas vazias ao celular, bips irritantemente altos e incessantes de nextel... ou, ainda, pessoas que entram nos vagões do metrô como se fossem animais, empurrando e arrantando tudo o que está a frente, mochiladas, sacoladas e bolsadas por toda a parte... sem contar as vezes em que me sinto numa verdadeira descrição de Aluízio Azevedo sobre cheiros e aspectos de locais nada agradáveis...
Não. Não dá para aguentar isso dia após dia e não ficar revoltada, não ter acessos de raiva, não querer que o mundo exploda.É muita diferença e parece que só aumenta mais com o tempo.
Relutei muito, mas cheguei no meu limite.Hoje, sempre que posso, sou mais uma a atravancar o trânsito dessa cidade. Mais um carro com apenas uma pessoa, que optou pelo trânsito com conforto já que não existe transporte público de qualidade à disposição.
Enquanto as pessoas acharem mais importante o consumo, enquanto o governo continuar a privilegiar a elevação de pessoas das classes pobres à classe média, medindo essa mudança principalmente pela questão financeira, pelo poder de consumo das pessoas, em detrimento da educação, loucos são aqueles que colocam filhos no mundo.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
terça-feira, 21 de setembro de 2010
V Semana de Biblioteconomia da ECA/USP
Para quem ainda não sabe, sou estudante de Biblioteconomia. Se tudo der certo, me formarei neste ano e serei uma Bibliotecária.

Toda vez que falo o nome do meu curso ou a minha profissão a alguém que não conhece a área escuto a mesma pergunta: - Biblio o quê?
E, logo em seguida, vem: - E quem faz Biblioteconomia trabalha em que?
Ou, ainda, faz logo a associação mais conhecida: - Ah! Você trabalha em biblioteca? (e logo vem aquela imagem de uma biblioteca escura, úmida, mal arrumada com uma bibliotecária velha, gorda, de óculos e cara amarrada que preza pelo silêncio absoluto...)
Bom, para mostrar às pessoas o que fazem, onde atuam os Bibliotecários e dissipar as dúvidas e a imagem antiga e inadequada que reina no senso comum com relação a essa profissão, a V Semana de Biblioteconomia da ECA/USP deste ano vai tratar do tema: "As áreas de atuação do Bibliotecário". Com o slogan: Biblioteconomia: Como? Onde? Por quê? as palestras, mesas-redondas e atividades terão por objetivo abordar, informar e mostrar os diferentes campos de atuação desse profissional, imprescindível para as organizações, por ser o especialista na questão de organização, gerenciamento e disponibilização da informação, insumo fundamental em todas as áreas de nossa sociedade.
A Semana terá, também, a estréia do BiblioLab. Inspirado no TED [sigla de Tecnology, Entertaiment e Design], ciclo de palestras que acontece uma vez por ano na Califórnia, onde cada palestrante tem 15 minutos para mostrar a sua “idéia para se espalhar”, o BiblioLab será composto por palestras de alunos (em formação e recém formados) de Biblioteconomia. O intuito é abrir um canal de comunicação e divulgação sobre algum assunto de domínio, projeto idealizado ou realizado, experiência ou ideia em que o palestrante acredita.
Será uma grande oportunidade para compartilhar ideias, impressões, opiniões e conhecimentos.
Faço parte da Comissão Organizadora da Semana e convido você a fazer parte deste evento!

V Semana de Biblioteconomia da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP)
De 27/09 à 01/10
De 27/09 à 01/10
A Semana de Biblioteconomia da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) é em evento acadêmico que objetiva estimular e promover o espírito crítico em relação à formação e à atuação do bibliotecário; aproximar a USP à comunidade bibliotecária paulista e divulgar o curso de Biblioteconomia na ECA/USP e em outras instituições relacionadas com a área, mostrando a multiplicidade de atuações do bibliotecário e a interdisciplinaridade da carreira com outras áreas.
O evento é organizado por alunos do curso de Biblioteconomia da ECA/USP e de outras Instituições de Ensino em Biblioteconomia e Ciência da Informação e, neste ano, está sob a orientação do Professor Waldomiro Vergueiro e tem o apoio do departamento de Biblioteconomia e documentação (CBD). Serão promovidas palestras e mesas-redondas com convidados e ex-alunos do próprio curso. As atividades ocorrerão entre 27 de setembro a 01 de outubro de 2010.
Neste ano o tema da V Semana de Biblioteconomia será “As áreas de atuação do bibliotecário” e contará com mesas-redondas sobre Bibliotecas, Centros de Documentação, Centros de Memória, Consultorias, Arquitetura da Informação, Documentação Audiovisual, Área Acadêmica: pesquisa e docência e uma palestra sobre Bibliotecários no mundo: a experiência do profissional de outro país.
O evento é organizado por alunos do curso de Biblioteconomia da ECA/USP e de outras Instituições de Ensino em Biblioteconomia e Ciência da Informação e, neste ano, está sob a orientação do Professor Waldomiro Vergueiro e tem o apoio do departamento de Biblioteconomia e documentação (CBD). Serão promovidas palestras e mesas-redondas com convidados e ex-alunos do próprio curso. As atividades ocorrerão entre 27 de setembro a 01 de outubro de 2010.
Neste ano o tema da V Semana de Biblioteconomia será “As áreas de atuação do bibliotecário” e contará com mesas-redondas sobre Bibliotecas, Centros de Documentação, Centros de Memória, Consultorias, Arquitetura da Informação, Documentação Audiovisual, Área Acadêmica: pesquisa e docência e uma palestra sobre Bibliotecários no mundo: a experiência do profissional de outro país.
Para ter acesso à programação completa e realizar sua inscrição, acesse o site
http://www.cabieca.com.br/semanabiblio/.
Também é possível acompanhar a V Semana de Biblioteconomia pelas redes sociais Twitter e Facebook.
Comissão Organizadora da V Semana de Biblioteconomia da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP).
Marcadores:
Bibliotecária,
Biblioteconomia,
ECA,
Semana de Biblioteconomia,
USP
domingo, 8 de agosto de 2010
Como posso construir um foguete?
Estava assistindo o Zoom. Realmente a melhor coisa a se fazer numa noite fria de sábado, depois de jantar em companhia dos pais, quando não se foi a uma balada ou se esqueceu de passar numa locadora antes da sexta a noite... Reconheci a animação, aliás ia pesquisar no site para me certificar de que aquela não era a primeira vez que a via ali... pois lembrei dela logo de início... me deu uma sensação boa... lembrei de como eu me sentia na primeira vez que a assisti... lembrei do final... e a vi com atenção e afeto... aquele carinho que a gente sente por aquilo que conhece, sabe? "Rua das tulipas" é o nome da animação. E, no meio dela, surge o questinamento, que não vou lembrar EXATAMENTE como é... mas que dizia... "- E quando já se construiu tudo aquilo que se sonhou? - E quando não se tem mais sonhos?"... E foi aí que tive o estalo... que descobri que era isso o que eu precisava (e buscava) tanto saber em todos os dias da minha vida, há quase 2 anos... Porque eu pensava muito em tudo e em nada. Passava horas divagando, me desconcentrava do que estava fazendo, me fechava, me isolava... só pra pensar e achar uma resposta e tentar entender tudo aquilo que estava acontecendo. E tudo aquilo virava nada, me deixava estagnada. Era uma constante busca em saber por quê? por que estava sentindo tudo aquilo? Até que dei conta que "aquilo" não era sentimento... era a "falta" dele. Eu precisava entender por que não sentia mais nada... Por que estava tão vazia... Até que aquela pergunta, aquela animação, me mostrou o que não conseguia enxergar.
Estalo.
É isso: Eu não tenho mais sonhos.
.
.
.
.
.
.
Vazio.
.
.
.
.
.
Como posso construir um foguete?
Como posso construir um foguete?
segunda-feira, 26 de julho de 2010
O abraço
Sabe aquele abraço? Aquele que você recebe num momento de profundo desespero... quando a desolação é tamanha que chega a doer fisicamente?
Ele vem de forma totalmente inesperada, mas, mesmo com curta duração, tem o poder de anular todo o sofrimento por alguns longos segundos... Durante ele a gente entende que são nos momentos de maior dor que temos também a chance de encontrar o carinho sincero. É aquele abraço verdadeiro, que realmente te conforta. É estranho, mas consegue expressar uma concreta troca de sentimentos. É intenso. E não é necessário trocar uma palavra sequer... É aquele abraço que sucede apenas uma troca de olhares... e tudo fica suspenso... Neste momento, as emoções, a troca de sentimentos, são as únicas coisas que acontecem, como se tudo, todo o resto, simplesmente deixasse de existir.
Palavras não são capazes de descrever a intensidade desse gesto. Somente quem o sentiu pode entender. É um abraço que a maioria das pessoas nunca trocou e nem trocará durante suas vidas... É raro... resulta da somatória de diversos fatores... é uma química... chega a ser místico... Um gesto que exprime uma compreensão mútua.
Compreensão............. compreensão............... talvez seja essa a grande chave... o que o torna único, que o destaca de todos os outros... Porque, não, esse abraço não é “mais um”. É completamente diferente dos demais, hoje em dia tão mecanizados, tão vazios, tão falsos... tão sem sentido...
Esse abraço não é racionalizável. É profundamente sincero e espontâneo, aí entra a questão da química, porque é preciso que seja assim de ambas as partes para que toda a silenciosa explosão de sentimentos seja mútua.
Os momentos de maior dor podem, também, nos trazer as maiores surpresas... que nos fazem perceber que a vida é uma mistura. Não há maniqueísmo. Muitas vezes, temos a impressão (ou até mesmo a certeza) de que estamos vivendo ou sentindo algo predominante; nos esquecemos de que nada é unilateral. E... na maior parte das vezes... são atos simples e muito pequenos que conseguem realizar a mágica de nos fazer perceber que a maior oportunidade de aprendizado está na multiplicidade e na simultaneidade das emoções que a vida é capaz de nos dar.
Naquela madrugada fria, no jardim, enquanto olhava para o céu (não sei dizer se haviam estrelas, era aquele olhar que não vê...), escutei um carro estacionando, me virei, avistei um táxi e tive um sobressalto... Ele veio em minha direção, eu já em soluços... e tive a felicidade de receber esse abraço num dos momentos mais dolorosos de minha vida. Confortou-me naquela madrugada fria e me conforta até hoje, pois todas as vezes que me vem à memória junto vem também tudo o que senti. Foi um momento de profunda tristeza, mas aquele abraço aqueceu minha alma, meu coração...
A memória é uma coisa surpreendente, é capaz de nos trazer de volta não só histórias, mas cheiros, sensações, sentimentos... E a lembrança desse abraço me faz reviver aquele momento de conforto, aquela sensação de cumplicidade na dor e a certeza de que ela, apesar de triste, pode nos proporcionar serenidade.
Ele vem de forma totalmente inesperada, mas, mesmo com curta duração, tem o poder de anular todo o sofrimento por alguns longos segundos... Durante ele a gente entende que são nos momentos de maior dor que temos também a chance de encontrar o carinho sincero. É aquele abraço verdadeiro, que realmente te conforta. É estranho, mas consegue expressar uma concreta troca de sentimentos. É intenso. E não é necessário trocar uma palavra sequer... É aquele abraço que sucede apenas uma troca de olhares... e tudo fica suspenso... Neste momento, as emoções, a troca de sentimentos, são as únicas coisas que acontecem, como se tudo, todo o resto, simplesmente deixasse de existir.
Palavras não são capazes de descrever a intensidade desse gesto. Somente quem o sentiu pode entender. É um abraço que a maioria das pessoas nunca trocou e nem trocará durante suas vidas... É raro... resulta da somatória de diversos fatores... é uma química... chega a ser místico... Um gesto que exprime uma compreensão mútua.
Compreensão............. compreensão............... talvez seja essa a grande chave... o que o torna único, que o destaca de todos os outros... Porque, não, esse abraço não é “mais um”. É completamente diferente dos demais, hoje em dia tão mecanizados, tão vazios, tão falsos... tão sem sentido...
Esse abraço não é racionalizável. É profundamente sincero e espontâneo, aí entra a questão da química, porque é preciso que seja assim de ambas as partes para que toda a silenciosa explosão de sentimentos seja mútua.
Os momentos de maior dor podem, também, nos trazer as maiores surpresas... que nos fazem perceber que a vida é uma mistura. Não há maniqueísmo. Muitas vezes, temos a impressão (ou até mesmo a certeza) de que estamos vivendo ou sentindo algo predominante; nos esquecemos de que nada é unilateral. E... na maior parte das vezes... são atos simples e muito pequenos que conseguem realizar a mágica de nos fazer perceber que a maior oportunidade de aprendizado está na multiplicidade e na simultaneidade das emoções que a vida é capaz de nos dar.
Naquela madrugada fria, no jardim, enquanto olhava para o céu (não sei dizer se haviam estrelas, era aquele olhar que não vê...), escutei um carro estacionando, me virei, avistei um táxi e tive um sobressalto... Ele veio em minha direção, eu já em soluços... e tive a felicidade de receber esse abraço num dos momentos mais dolorosos de minha vida. Confortou-me naquela madrugada fria e me conforta até hoje, pois todas as vezes que me vem à memória junto vem também tudo o que senti. Foi um momento de profunda tristeza, mas aquele abraço aqueceu minha alma, meu coração...
A memória é uma coisa surpreendente, é capaz de nos trazer de volta não só histórias, mas cheiros, sensações, sentimentos... E a lembrança desse abraço me faz reviver aquele momento de conforto, aquela sensação de cumplicidade na dor e a certeza de que ela, apesar de triste, pode nos proporcionar serenidade.
domingo, 11 de julho de 2010
“I try to say good-bye, and I choke; Try to walk away, and I stumble”
25/11/2008 – 23:55h
Acordou com o toque de mensagem do celular: "Oi, sabe que o ele não tá bem? Bj."
Meses antes
- Posso mesmo ir à reunião? Tem certeza? Não vão achar que sou uma “intrusa”?
...
Acordou com o toque de mensagem do celular: "Oi, sabe que o ele não tá bem? Bj."
Meses antes
- Posso mesmo ir à reunião? Tem certeza? Não vão achar que sou uma “intrusa”?
...
- Então tá bom, te encontro lá por volta das 18:30h, mais ou menos, pois como sabe dependo do trânsito...
Final de tarde de agosto, Centro Cultural São Paulo.
De todos que lá estariam, conhecia apenas uma pessoa, que estava se tornando um grande amigo e companheiro. Ficou com receio. Afinal, sempre foi de expressar suas opiniões, sugerir suas idéias... muitos não estão abertos a essas “trocas” quando vindas de uma desconhecida... Mas ela foi. Estava determinada a preencher todo o seu tempo de toda forma que pudesse, na esperança de que essa atividade conseguisse, ao contrário das demais, realmente ocupar sua cabeça, desviar seu pensamento.
Ficou feliz com o resultado da reunião. Foi bem recebida e aceita para integrar uma das comissões organizadoras. Agora era partir para o trabalho.
Final de tarde de agosto, Centro Cultural São Paulo.
De todos que lá estariam, conhecia apenas uma pessoa, que estava se tornando um grande amigo e companheiro. Ficou com receio. Afinal, sempre foi de expressar suas opiniões, sugerir suas idéias... muitos não estão abertos a essas “trocas” quando vindas de uma desconhecida... Mas ela foi. Estava determinada a preencher todo o seu tempo de toda forma que pudesse, na esperança de que essa atividade conseguisse, ao contrário das demais, realmente ocupar sua cabeça, desviar seu pensamento.
Ficou feliz com o resultado da reunião. Foi bem recebida e aceita para integrar uma das comissões organizadoras. Agora era partir para o trabalho.
A necessidade de preencher sua vida de modo a tentar neutralizar todas as lembranças, todo o turbilhão de sentimentos que lhe traziam, era tamanha que mergulhou de cabeça nesse novo projeto. Passou de integrante da Comissão de Patrocínio para integrante da Coordenação Geral. Cuidou da divulgação, organização dos alojamentos, da contratação dos banheiros químicos, da tenda, da última festa do evento, das inscrições... não parou. Durante 8h fazia seu trabalho no Centro de Documentação da empresa em que trabalhava e durante as 24h do dia pensava e trabalhava para realizar o encontro dos estudantes.
As tentativas anteriores tinham falhado. Desde o dia em que aquele e-mail pôs um fim no que havia, e ela sabia que era preciso ocupar a mente.
Assim vieram os cursos de literatura, de poesia, de história da arte. Queria retomar os estudos sobre os assuntos que gostava e que havia, de certa forma, abandonado, por tantos motivos. Saía do trabalho e alternava suas noites entre as aulas na faculdade, a Casa das Rosas, a Biblioteca Alceu Amoroso Lima, as aulas no MASP (aos sábados) e às idas à Pinacoteca do Estado.
Já vinha pensando em tudo, antes mesmo do fim. Conseguiu sentir mas não racionalizar. E ainda não tinha conseguido. Entretanto, entendeu que precisava parar de pensar em tudo aquilo. Escutava Macy, no metrô, (“I try to say good-bye, and I choke; Try to walk away, and I stumble”...) e (fazia tanto sentido) compreendia isso tão bem… E não importava se estava escutando algo ou não, chorava no metrô, no ônibus, no meio do almoço na praça de alimentação do shopping que freqüentava de segunda à sexta. Não controlava as lágrimas e os soluços e a tristeza e a dor. O choro acontecia em frente ao seu computador no trabalho, enquanto caminhava pela rua, durante o banho, deitada na cama. E depois de muito, muito tempo, percebeu que precisava ocupar sua mente de forma que pudesse estancar tudo aquilo.
Sempre se preocupou em não demonstrar seus sentimentos. Nunca gostou disso. E agora, que não podia controlar, preocupava-se.
Sempre se preocupou em não demonstrar seus sentimentos. Nunca gostou disso. E agora, que não podia controlar, preocupava-se.
Com a responsabilidade de organização do evento vieram também as novas amizades, tímidas de início, mais relações de trabalho... porém conseguiu estreitar laços com pessoas diferentes, que despertavam sua curiosidade... sabe aquele sentimento de empatia? Ela sentia por alguns, e conseguiu se aproximar.
Reviveu os tempos da faculdade no interior. As conversas sobre disciplinas, as opiniões sobre a profissão, o mercado de trabalho, professores, os rumos políticos da faculdade, as festas, as músicas... enfim, reencontrou-se, de certo modo, com o mundo que tinha deixado.
Óbvio que não tinha esquecido. Não havia um dia sequer que passasse sem pensar, em tudo o que viveu, no que havia se tornado e nas milhares de hipóteses que criava em sua cabeça para tentar entender como as coisas tinham caminhado para aquele fim. Continuava sendo difícil, sim. Mas o trabalho na organização tinha conseguido amenizar a angústia, a dor e controlar (um pouco) as lágrimas.
Na manhã do primeiro dia do encontro, os ônibus chegavam de São Carlos, Rio, Minas, Paraná, Goiânia... e, enquanto realizava as inscrições da galera, começou a sentir-se mal... não soube explicar ao pessoal o que exatamente estava sentindo. Vendo que piorava, deixou a mesa das inscrições e saiu para respirar melhor debaixo das árvores que balançavam levemente com a brisa que soprava. Ficou ali por uns 20 minutos. Achou que fosse desmaiar. Sentiu tontura e um vazio... um vazio imenso... ficou angustiada. Pensou em ir ao HC, mas decidiu controlar tudo aquilo sozinha, mesmo não tendo a menor ideia do que estava acontecendo. Tinha comido na noite anterior, tinha dormido (bem pouco, é verdade), mas estava acostumada, e não estava “preocupada” com o evento ao ponto de passar mal por isso. Conversou consigo mesma em pensamento, respirou fundo por muitas vezes, pensou... O vento foi soprando em seu rosto, em sua nuca, acalmando o peito e fazendo sua cabeça ficar um pouco mais leve. A angústia foi minimizada. Voltou para as inscrições.
Durante os quatro dias de evento ela e todos os envolvidos na organização e apoio não pararam. Dias longos. A noite de sono mais longa durou 3h e meia. Muito, muito trabalho, alguns estresses, muita coisa pra resolver, correria e, também, muita gente diferente, muita troca, palestras, boas risadas, música, interação. Foi um momento ímpar. Um grande aprendizado.
Ao final do evento, uma amiga querida que tinha feito parte do melhor ano de sua vida, chegou para passar 2 dias em sua casa. Precisava tirar seu visto no Consulado, para viajar para os Estados Unidos e aproveitaria para matar a saudades.
Ficou feliz com a companhia. Afinal, não se viam há quase 1 ano. Fizeram os passos necessários: banco, consulado, Mc Donald’s, casa. À noite, mais conversas do que sono (o básico nas noites entre amigas) e então ela foi embora.
Estava exausta, mas feliz com todos os acontecimentos de sua última semana. Sentiu que poderia recuperar a vontade de se entregar as atividades que gostava com a mesma dedicação de antigamente. Voltou a sentir orgulho do seu trabalho, do modo como encara as diversas situações. Voltou a ter confiança. E, o que mais a impressionava, a maneira como agiu: com a calma e tolerância, que não eram comuns. Não, não era intolerante, arrogante, briguenta. Não era uma pessoa descontrolada, mas a verdade é que não costumava ter muita paciência com pessoas que não tinham o mesmo “ritmo” que o seu.
Reviveu os tempos da faculdade no interior. As conversas sobre disciplinas, as opiniões sobre a profissão, o mercado de trabalho, professores, os rumos políticos da faculdade, as festas, as músicas... enfim, reencontrou-se, de certo modo, com o mundo que tinha deixado.
Óbvio que não tinha esquecido. Não havia um dia sequer que passasse sem pensar, em tudo o que viveu, no que havia se tornado e nas milhares de hipóteses que criava em sua cabeça para tentar entender como as coisas tinham caminhado para aquele fim. Continuava sendo difícil, sim. Mas o trabalho na organização tinha conseguido amenizar a angústia, a dor e controlar (um pouco) as lágrimas.
Na manhã do primeiro dia do encontro, os ônibus chegavam de São Carlos, Rio, Minas, Paraná, Goiânia... e, enquanto realizava as inscrições da galera, começou a sentir-se mal... não soube explicar ao pessoal o que exatamente estava sentindo. Vendo que piorava, deixou a mesa das inscrições e saiu para respirar melhor debaixo das árvores que balançavam levemente com a brisa que soprava. Ficou ali por uns 20 minutos. Achou que fosse desmaiar. Sentiu tontura e um vazio... um vazio imenso... ficou angustiada. Pensou em ir ao HC, mas decidiu controlar tudo aquilo sozinha, mesmo não tendo a menor ideia do que estava acontecendo. Tinha comido na noite anterior, tinha dormido (bem pouco, é verdade), mas estava acostumada, e não estava “preocupada” com o evento ao ponto de passar mal por isso. Conversou consigo mesma em pensamento, respirou fundo por muitas vezes, pensou... O vento foi soprando em seu rosto, em sua nuca, acalmando o peito e fazendo sua cabeça ficar um pouco mais leve. A angústia foi minimizada. Voltou para as inscrições.
Durante os quatro dias de evento ela e todos os envolvidos na organização e apoio não pararam. Dias longos. A noite de sono mais longa durou 3h e meia. Muito, muito trabalho, alguns estresses, muita coisa pra resolver, correria e, também, muita gente diferente, muita troca, palestras, boas risadas, música, interação. Foi um momento ímpar. Um grande aprendizado.
Ao final do evento, uma amiga querida que tinha feito parte do melhor ano de sua vida, chegou para passar 2 dias em sua casa. Precisava tirar seu visto no Consulado, para viajar para os Estados Unidos e aproveitaria para matar a saudades.
Ficou feliz com a companhia. Afinal, não se viam há quase 1 ano. Fizeram os passos necessários: banco, consulado, Mc Donald’s, casa. À noite, mais conversas do que sono (o básico nas noites entre amigas) e então ela foi embora.
Estava exausta, mas feliz com todos os acontecimentos de sua última semana. Sentiu que poderia recuperar a vontade de se entregar as atividades que gostava com a mesma dedicação de antigamente. Voltou a sentir orgulho do seu trabalho, do modo como encara as diversas situações. Voltou a ter confiança. E, o que mais a impressionava, a maneira como agiu: com a calma e tolerância, que não eram comuns. Não, não era intolerante, arrogante, briguenta. Não era uma pessoa descontrolada, mas a verdade é que não costumava ter muita paciência com pessoas que não tinham o mesmo “ritmo” que o seu.
Na quinta-feira pela manhã tinha uma reunião importante no trabalho. Foi dormir mais cedo. O corpo já mostrava os sinais de cansaço acumulado nas últimas semanas.
Às 23:55 acordou assustada com o som do celular. Odiava acordar com toque de telefone, campainha, alarme... Tinha recebido uma mensagem. Sonolenta, leu: “Oi, sabe que o ele não tá bem? Bj.”
Em seguida, ligou de volta.
Às 23:55 acordou assustada com o som do celular. Odiava acordar com toque de telefone, campainha, alarme... Tinha recebido uma mensagem. Sonolenta, leu: “Oi, sabe que o ele não tá bem? Bj.”
Em seguida, ligou de volta.
- Sabe que ele está doente?
- Sei que esteve doente, mas que já está bem. O que tem?
- Está internado, na UTI, e está muito mal. Não sabia se estava sabendo, então resolvi te falar...
- Como assim? Ele mesmo me disse que tinha ficado doente há uns 2 meses, que chegou a ficar internado, mas me garantiu que já estava bem. Que não havia sido nada de sério...
- Esteve mesmo, mas ficou mal de novo e desta vez... não sei... estão todos muito preocupados... ele está muito mal... a família está com ele.
- Meu Deus... eu não sabia! Ninguém me falou! Mas... como?! Como não soube disso antes?! ... Vou falar com a mãe dele, vou ver o que posso fazer... Obrigada por ter me avisado.
Desligou o celular completamente desnorteada. Abriu a porta do quarto, desceu as escadas e foi para a cozinha. Um milhão de pensamentos passavam por sua cabeça e ela parecia estar caindo em um buraco sem fim. Estava tonta.
Sua mãe tinha chegado a poucos minutos do trabalho e estava jantando. Ela contou sobre o telefonema e começou a chorar. Sua mãe lhe fez um chá, a consolou e orientou para que ligasse para os pais apenas pela manhã, pois já era tarde...
Voltou para a cama e tudo parecia tão surreal.
Sua mãe tinha chegado a poucos minutos do trabalho e estava jantando. Ela contou sobre o telefonema e começou a chorar. Sua mãe lhe fez um chá, a consolou e orientou para que ligasse para os pais apenas pela manhã, pois já era tarde...
Voltou para a cama e tudo parecia tão surreal.
Na manhã seguinte, foi para o trabalho. Antes de entrar na reunião, ligou. Teve que correr para o banheiro. A mãe dele estava na capela, rezando, quando atendeu o telefone e desabou num choro repleto de soluços quando reconheceu a voz de quem ligava. Realmente era muito grave. Prometeu ir ao encontro deles no mesmo dia.
Desligou o celular, respirou fundo, lavou o rosto e foi para a reunião. Apenas o corpo presente. Pensava em pesquisar os horários de ônibus, comprar a passagem, avisar os pais, passar em casa e correr para a rodoviária.
Reunião terminada, pegou sua bolsa e saiu. Ligou para os pais e também para a amiga, aquela que dois dias antes tinha recebido em sua casa. Agora seria a vez dela a receber.
Durante os 8 anos em que morou fora, seu pai sempre a levou e a buscou da rodoviária sem a companhia de sua mãe. Desta vez, os dois a acompanharam. Estacionaram o carro, foram ao guichê, compraram a passagem e a embarcaram no ônibus.
Ele estava mesmo muito mal. Tinha sido internado na quinta-feira anterior. Coincidentemente, ou não, no dia em que teve o mal estar.
Desligou o celular, respirou fundo, lavou o rosto e foi para a reunião. Apenas o corpo presente. Pensava em pesquisar os horários de ônibus, comprar a passagem, avisar os pais, passar em casa e correr para a rodoviária.
Reunião terminada, pegou sua bolsa e saiu. Ligou para os pais e também para a amiga, aquela que dois dias antes tinha recebido em sua casa. Agora seria a vez dela a receber.
Durante os 8 anos em que morou fora, seu pai sempre a levou e a buscou da rodoviária sem a companhia de sua mãe. Desta vez, os dois a acompanharam. Estacionaram o carro, foram ao guichê, compraram a passagem e a embarcaram no ônibus.
Ele estava mesmo muito mal. Tinha sido internado na quinta-feira anterior. Coincidentemente, ou não, no dia em que teve o mal estar.
Estava na UTI, consciente, mas não falava e não se mexia. Apenas movia os olhos.
A primeira vez que entrou para vê-lo, estava dormindo. A medicação o fazia dormir e inchar muito. Seu rosto estava diferente, mas ainda era o cara que amava. Não se viam há um ano e sete meses. E assim que o viu tanta coisa veio à tona... Estava deitado, cheio de aparelhos, tubos e com o lençol abaixo dos ombros. Viu seu peito, teve uma imensa vontade de abraçá-lo, de senti-lo e deitar sua cabeça nele, como havia feito tantas vezes.
A pedido dos pais dele, saiu da casa da amiga e foi ficar no apartamento com eles. Momento doloroso voltar a colocar os pés naquele apartamento. Ainda mais naquela situação. Ainda cheia de feridas abertas... a última vez que havia estado lá já sentia que as coisas não estavam bem entre eles... mas estava engasgada... não conseguia entender o que estava sentindo, o que estava acontecendo... e as lembranças daquele último carnaval juntos machucavam demais. Somava-se a isso o fato de ele não estar ali. Mas manteve a pose. Somente ao entrar no banheiro, com o chuveiro ligado para abafar o som, é que desmoronou em lágrimas. Sentia o peito mais apertado que nunca. Meus Deus, como doía.
No dia seguinte, entrou para vê-lo junto com uma das amigas dele. Estava acordado. Meio “grogue”, mas acordado. A amiga conversou muito. Ficou do lado direito da cama, enquanto ela no esquerdo, um pouco mais afastada. Sempre agia assim, essas situações a travavam. Ficou calada. Invejando a facilidade de expressão de sentimentos da amiga que citava os nomes das muitas pessoas que estavam lá no saguão do hospital para ter notícias dele (e que não podiam entrar, já que a visita era limitada a 2 pessoas, além dos pais). Foi então que percebeu que ela tinha esquecido de um nome e o falou em voz alta.
Imediatamente ele virou o rosto para o lado de onde tinha vindo a voz. Então ela se aproximou um pouco, a amiga dele disse quem estava ali e nesse instante, uma lágrima rolou no rosto dele. Ele reconheceu minha voz, pensou. E travou mais ainda. Não conseguiu dizer nada do que realmente queria... mas disse que estava lá e acreditava em sua recuperação.
A primeira vez que entrou para vê-lo, estava dormindo. A medicação o fazia dormir e inchar muito. Seu rosto estava diferente, mas ainda era o cara que amava. Não se viam há um ano e sete meses. E assim que o viu tanta coisa veio à tona... Estava deitado, cheio de aparelhos, tubos e com o lençol abaixo dos ombros. Viu seu peito, teve uma imensa vontade de abraçá-lo, de senti-lo e deitar sua cabeça nele, como havia feito tantas vezes.
A pedido dos pais dele, saiu da casa da amiga e foi ficar no apartamento com eles. Momento doloroso voltar a colocar os pés naquele apartamento. Ainda mais naquela situação. Ainda cheia de feridas abertas... a última vez que havia estado lá já sentia que as coisas não estavam bem entre eles... mas estava engasgada... não conseguia entender o que estava sentindo, o que estava acontecendo... e as lembranças daquele último carnaval juntos machucavam demais. Somava-se a isso o fato de ele não estar ali. Mas manteve a pose. Somente ao entrar no banheiro, com o chuveiro ligado para abafar o som, é que desmoronou em lágrimas. Sentia o peito mais apertado que nunca. Meus Deus, como doía.
No dia seguinte, entrou para vê-lo junto com uma das amigas dele. Estava acordado. Meio “grogue”, mas acordado. A amiga conversou muito. Ficou do lado direito da cama, enquanto ela no esquerdo, um pouco mais afastada. Sempre agia assim, essas situações a travavam. Ficou calada. Invejando a facilidade de expressão de sentimentos da amiga que citava os nomes das muitas pessoas que estavam lá no saguão do hospital para ter notícias dele (e que não podiam entrar, já que a visita era limitada a 2 pessoas, além dos pais). Foi então que percebeu que ela tinha esquecido de um nome e o falou em voz alta.
Imediatamente ele virou o rosto para o lado de onde tinha vindo a voz. Então ela se aproximou um pouco, a amiga dele disse quem estava ali e nesse instante, uma lágrima rolou no rosto dele. Ele reconheceu minha voz, pensou. E travou mais ainda. Não conseguiu dizer nada do que realmente queria... mas disse que estava lá e acreditava em sua recuperação.
Era uma contradição, uma de suas maiores características era justamente falar o que pensava, expor suas idéias e opiniões não importava em que ambiente estivesse... Entretanto, constatava diante de tudo o que vinha passando que, nos momentos mais importantes, ela se calava. Tinha uma extrema dificuldade em exprimir seus sentimentos. Assim foi com as avós, quando estavam internadas. Assim era agora. Nos momentos mais importantes, ela falhava.
Falhou por dez dias, seguidamente. O máximo que consegui dizer a ele foi o quanto sempre o admirou e o admirava. Que era a pessoa mais determinada que tinha conhecido e que acreditava que ficaria bom.
De fato era verdade, tudo o que conseguira dizer era verdade. Principalmente a confiança que tinha em sua recuperação.
Mas não deu certo. Toda a sua esperança e todos os pedidos mais profundos a Deus, à sua falecida avó, aos santos e anjos para que o ajudassem a sarar foram em vão.
Falhou por dez dias, seguidamente. O máximo que consegui dizer a ele foi o quanto sempre o admirou e o admirava. Que era a pessoa mais determinada que tinha conhecido e que acreditava que ficaria bom.
De fato era verdade, tudo o que conseguira dizer era verdade. Principalmente a confiança que tinha em sua recuperação.
Mas não deu certo. Toda a sua esperança e todos os pedidos mais profundos a Deus, à sua falecida avó, aos santos e anjos para que o ajudassem a sarar foram em vão.
E junto com a dor inconsolável da perda, do sentimento de impotência diante do irremediável, ficou ainda o pesar do nó na garganta. O nó que transformou o não dito que precisava tão necessariamente ser dito em mais dor, mais angústia... num arrependimento sem fim.
Assinar:
Postagens (Atom)








